A série parte da relação entre corpo, território e memória e aproxima dois lugares que fazem parte da minha história: Guatemala e Japão. Em comum, a presença marcante dos vulcões na paisagem. De um lado, o Acatenango, na Guatemala; de outro, o Monte Fuji. Entre essas imagens, o fluxo da lava aparece como uma espécie de linha subterrânea que conecta geografias distintas. Seu desenho, sinuoso e ramificado, pode lembrar uma raiz, estabelecendo uma ligação entre terra, memória e pertencimento.
Corpo e território se misturam: mulher-vulcão, mulher-cordilheira, mulher-montanha. As mulheres gigantes ocupam espaço, mas principalmente enxergam o mundo em outra escala. Uma cordilheira deixa de ser obstáculo e vira caminho; o vulcão deixa de ser ameaça e vira abraço; a montanha deixa de ser paisagem e se transforma em lugar de origem. Essas gigantes não vieram para dominar a paisagem, pertencem a ela. Cresceram entre montanhas e aprenderam a caminhar por cima delas.
O vulcão também traz em si uma ideia de ruína e renascimento. Suas erupções destroem, transformam e, ao mesmo tempo, fertilizam o solo. A lava desce como se fossem rios e, ao se solidificar, cria outro chão. Esse ciclo de destruição e reconstrução se aproxima do modo como uma memória dolorosa pode, com o tempo, se transformar em matéria-prima para uma nova história.
O Popol Vuh, livro sagrado dos maias, descreve a descida ao submundo como um percurso cheio de provas. É preciso atravessar rios, matas de espinhos e caminhos difíceis para alcançar o interior da terra. Ao contrário da tradição cristã, em que o sagrado costuma estar associado ao céu, para os maias ele está também dentro da terra, no lugar onde a vida nasce. Rios, olhos d’água, cavernas e vulcões são caminhos de acesso a esse mundo subterrâneo.
Revisitar a própria história tem algo desse percurso. Algumas memórias exigem atravessamentos difíceis. Ainda assim, retornar a elas também pode ser uma forma de reconstrução:. Como a terra depois da erupção, voltamos ao presente caminhando sobre as camadas do que aconteceu, um pouco mais firmes e, quem sabe, mais férteis.